08/07/15

O Tumulto das Ondas

O Tumulto das OndasO Tumulto das Ondas by Yukio Mishima
My rating: 4 of 5 stars

Tumultuante simplicidade.

“À luz da vigia, Shinji estudou a fotografia de Hatsue. A rapariga estava apoiada a um pinheiro alto do cabo Daio e a brisa marinha erguia a fímbria dos seus vestidos, remoinhando sob o ligeiro quimono branco de Verão e acariciando-lhe a pele nua. A coragem do rapaz reforçava-se com a recordação de que também ele fizera aquilo que agora o vento fazia na imagem.” (P.144)



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01/07/15

Eu lembro-me, sim, bem me lembro

Eu lembro-me, sim, bem me lembroEu lembro-me, sim, bem me lembro by Marcello Mastroianni
My rating: 4 of 5 stars

Depois deste livro, Mastroianni é outro homem para mim.

“Eu lembro-me, sim, bem me lembro” é a transcrição do filme “Mi recordo, sì, io mi ricordo” realizado em 1996 por Anna Maria Tatò e rodado enquanto Marcello Mastroianni filmava “Viagem ao Princípio do Mundo” com Manoel de Oliveira.

As recordações esparsas de momentos marcantes da vida de Mastroianni são narradas pelo próprio com uma simplicidade avassaladora. E para além da visão diversa que me transmitiu da sua pessoa, ainda condimentou as suas memórias com referências várias aos monstros sagrados com que trabalhou, abrindo-nos a porta dos momentos íntimos partilhados com Vittorio de Sica, Luchino Visconti, Federico Fellini ou Sophia Loren.

Um livro delicioso sobre um homem que deplorava o facto de o associarem à imagem do “latin lover” até porque, como dizia Fellini, “tens cara de saloio, de provinciano”. Um homem que nunca se deixou deslumbrar por Hollywood porque já se encontrava no coração do “cinematógrafo”, a Europa, e melhor era impossível. Um homem para quem ser actor era “jouer”, jogar, divertir-se, viajar e ser criança outra vez.



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Os Fantasmas de Pessoa

Os Fantasmas de PessoaOs Fantasmas de Pessoa by Manuel Jorge Marmelo
My rating: 3 of 5 stars

Um livro um tanto desgarrado que vale pela presença de Pessoa e seus heterónimos já que, a história paralela do escritor/assassino não me cativou nem um pouco.


“- Que horas são, mestre? – perguntou Campos, voltando-se para Caeiro e soprando contrariado.
- Oito e vinte e oito… Está na hora. O céu é grande e a terra é larga.
- Raios partam a vida e quem lá ande – protestou Campos.” (P.114)


A simples menção a Fernando Pessoa vale as 3 estrelas.


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A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O Suicídio e o Canto

A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O Suicídio e o CantoA Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O Suicídio e o Canto by Sayd Bahodine Majrouh
My rating: 4 of 5 stars

Já não me lembro onde comprei ou porque comprei este livro, mas ainda bem que o comprei.

Sayd Bahodine Majrouh, intelectual e poeta afegão, reúne neste pequeno livro um conjunto de landays ou cantos de natureza oral da autoria de mulheres pashtun, um grupo étnico afegão. Majrouh percorre, primeiro na companhia da irmã, aldeias pashtun onde esta poesia de transgressão lhe é finalmente revelada e por ele coligida; mais tarde, vagueia em campos de refugiados no Paquistão, dando continuidade ao trabalho interrompido graças à instabilidade política na região. E não se limita a revelar os landays, comenta-os, enquadrando o leitor naquele tão distante universo onde a mulher, aparentemente, não tem voz.
Sayd Bahodine Majrouh dá-nos a conhecer a identidade da mulher pashtun através do seu canto, da sua voz plena de vontade. Uma voz consciente do seu lugar no mundo. Do silêncio a que os maridos escolhidos pela família as votavam, emerge uma melodia breve mas intensa onde a mulher pashtun canta o verdadeiro amor e o verdadeiro amado, os encontros fortuitos, o desejo que a consome, a revolta contra o destino cruel, o sonho da revelação e da fuga, a ignomínia do cárcere em que vive.

Alguns exemplos:

“Em segredo ardo, em segredo choro
Sou a mulher pashtun que não pode revelar o seu amor”

Ou

“Vem depressa, amor, quero dar-te a minha boca!
Esta noite em sonhos vi-te morto e fiquei louca”

Ou ainda

“Tinha pulseiras, mas não as pus
Agora vou ter com o meu amante sem enfeites, de braços nus”

Sayd Bahodine Majrouh, voz incómoda que deu a conhecer ao mundo estas incómodas manifestações de individualidade feminina pashtun, foi assassinado no exílio em Peshawar no Paquistão em 1988.


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Pastoral Americana

Pastoral americanaPastoral americana by Philip Roth
My rating: 5 of 5 stars

“Penetrar no interior das pessoas era uma arte ou capacidade que ele não possuía. Não conhecia a combinação daquela fechadura. Para ele, quem desse sinais de bondade, era bom. Quem desse sinais de lealdade, era leal. Quem desse sinais de inteligência, era inteligente. E assim, ele não conseguira penetrar no íntimo da filha, da mulher, da sua única amante; provavelmente nem sequer conseguira começar a penetrar no seu próprio íntimo. O que era ele, despido de todos os sinais que emitia? As pessoas erguiam-se por todo o lado e gritavam: «Este sou eu! Este sou eu!» Sempre que se olhava para elas, elas erguiam-se e diziam-nos quem eram e a verdade é que sabiam tanto de si próprias como ele sabia dele mesmo. Elas também acreditavam nos seus sinais. O que deviam fazer era erguerem-se e gritarem: «Este não sou eu! Este não sou eu!» Se tivessem alguma vergonha era o que fariam. «Este não sou eu!» Só assim se consegue aguentar a merda deste mundo.” (P.397/398)

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O Retorno

O RetornoO Retorno by Dulce Maria Cardoso
My rating: 4 of 5 stars

“O Retorno” é um livro que gira em torno da história de uma família (o antes e o depois) confundindo-se com a História de um país que “não era só Portugal”. Impele à reflexão, à demarcação de fronteiras e abismos, ao esquadrinhar de motivações.

Dulce Maria Cardoso escreve de forma sublime.


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O Oceano no Fim do Caminho

O Oceano no Fim do CaminhoO Oceano no Fim do Caminho by Neil Gaiman
My rating: 2 of 5 stars

Nesta minha primeira abordagem à obra de Neil Gaiman, ficou a amarga impressão de tudo ser demasiado “simplificado”. Não quero com isto dizer que “complexificar” seja necessariamente salutar mas faltaram-lhe “camadas”, ingredientes, lampejos que tornassem a história, os cenários e as personagens INTENSOS. Não, não senti intensidade.

No que à escrita diz respeito, a minha opinião é de que não compromete, mas também não deslumbra, atingindo um nível meramente satisfatório.

Curiosamente, este “O Oceano no Fim do Caminho” lembrou-me em demasia um outro livro lido há pouco tempo, “Sangue Ruim” de Rhiannon Lassiter, tão em demasia que no fim, fiquei com uma estranha sensação de desconforto face a este trabalho de Neil Gaiman. E tenho a dizer que “Sangue Ruim” supera este estagnado oceano.


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As Origens do Mal

As Origens do MalAs Origens do Mal by Georges Minois
My rating: 4 of 5 stars



Gustave Doré (Ilustração de "Paraíso Perdido" de John Milton)



“O Paraíso Perdido é a mais pungente reflexão do século XVII sobre o pecado original e, para lá dela, sobre a condição humana. Não é atribuído o bom papel a Deus, perante um Lúcifer livre e magnífico, e um primeiro casal humano frágil e patético, unido por um amor indefectível. Deus exige uma submissão absoluta das suas criaturas; declara-as livres de fazerem o que bem entenderem, mas elas sofrerão eternos tormentos se porventura fizerem o que lhes proibiu! E, apesar da ameaça, tanto os anjos como os homens se afastaram do Criador. Essa escolha não será portadora da mais grave acusação contra a Criação? Adão e Eva preferiram o amor humano a uma vida paradisíaca de um tédio mortal. No fundo, Milton não parece estar longe de lhes dar razão.” (P.230)

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Sangue Sábio

Sangue SábioSangue Sábio by Flannery O'Connor
My rating: 4 of 5 stars



Trágico. Cómico. Negro. Flannery nunca desilude.

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22/05/15

Merdiano de Sangue

Meridiano de SangueMeridiano de Sangue by Cormac McCarthy
My rating: 5 of 5 stars

Tanta luz, tanta sombra.

A vastidão do velho e selvagem Oeste é percorrida no decorrer da assombrosa viagem de um rapaz por terras de todos e de ninguém onde se destaca um ser esculpido da rocha, do pó, do sangue, da alma dos que a perderam. Ele surge calvo, sorridente, diabólico, nebuloso até ao fim do relato quando o rapaz já é homem e avista o mar pela primeira vez. Ele eleva-se sobre os outros. Ele é princípio e ele é fim. Ele é o Juiz Holden.

E o mar é vasto como as planícies áridas calcorreadas onde o calor, o frio, o pó, a neve se confundem com o sangue que, qual poderosa argamassa, solidifica a terra, conquista-a para os homens. O mar é revelação?

O Juiz Holden não é um homem, é uma espécie de entidade tutelar que inunda e fertiliza este Meridiano de Sangue como o sangue que cobre a terra e nela se infiltra para gerar um novo mundo. É um sol dominador, um demiurgo. Como se cria uma personagem tão etérea e simultaneamente tão afirmativa e omnipotente?

A jornada de descoberta do rapaz, o rito iniciático, o círculo não se encerra. Fica a sensação de que a viagem é eterna e que, já homem, busca uma verdade, algum tipo de paz, de sentido divino em cada buraco que cava no deserto, alegoria, porventura, do seu coração acossado. E o coração negro e imortal do Juiz? Vagueará ainda e sempre nos lugares mais escusos da terra, arrebatará ainda e sempre as almas simples e delicadas, permanecerá ainda e sempre, à espreita, no canto mais recôndito do magma primevo. Pronto a ressurgir.


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13/02/15

Com o Diabo no Corpo

<a href="https://www.goodreads.com/book/show/11429098-com-o-diabo-no-corpo" style="float: left; padding-right: 20px"><img alt="Com o Diabo no Corpo" border="0" src="https://d.gr-assets.com/books/1306077917m/11429098.jpg" /></a><a href="https://www.goodreads.com/book/show/11429098-com-o-diabo-no-corpo">Com o Diabo no Corpo</a> by <a href="https://www.goodreads.com/author/show/423070.Raymond_Radiguet">Raymond Radiguet</a><br/>
My rating: <a href="https://www.goodreads.com/review/show/976229062">4 of 5 stars</a><br /><br />
Talvez sugestionada pelo facto de que Raymond Radiguet começou a escrever “Com o Diabo no Corpo” (1923) com a tenra idade de 16 anos, não consegui deixar de encarar a leitura do livro com alguma desconfiança, desconfiança esta que se foi acumulando à medida que avançava na leitura, até desembocar na certeza de que este é um livro escrito por um jovem maduro para a idade (porque muito bem escrito), mas ainda assim imaturo porque… só tinha 16 anos! <br><br>Apesar de tudo, esta fragilidade da obra, a ausência de vivência que enriqueceria o quadro passional (e não só), também foi por mim considerado um ponto forte porque transmite ao leitor a vivência do Amor de uma forma muito espontânea, natural e verdadeira, contada na perspectiva do jovem narrador que é também um dos protagonistas da história tecida.<br><br>Raymond Radiguet morreu aos 20 anos e tenho a certeza de que, a prosseguir a sua carreira literária, produziria obras mais coesas, limaria com toda a certeza as arestas que em “Com o Diabo no Corpo” ficaram por limar porque não se lhe podia exigir mais… <br><br>Ainda assim, pela coragem na abordagem do tema (que não é mero adultério, é adultério que envolve a mulher de um soldado francês colocado na frente de combate na I Guerra Mundial), pela envolvência da escrita e pela capacidade de desconcertar o leitor, vale a pena a leitura deste livro que tem tanto de terno como de exasperante. <br><br><br>
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<a href="https://www.goodreads.com/review/list/2007205-carla">View all my reviews</a>

O Assobiador / Há Prendizajens com o Chão

<a href="https://www.goodreads.com/book/show/6383829-o-assobiador-h-prendisajens-com-o-x-o" style="float: left; padding-right: 20px"><img alt="O Assobiador / Há Prendisajens com o Xão" border="0" src="https://d.gr-assets.com/books/1258728360m/6383829.jpg" /></a><a href="https://www.goodreads.com/book/show/6383829-o-assobiador-h-prendisajens-com-o-x-o">O Assobiador / Há Prendisajens com o Xão</a> by <a href="https://www.goodreads.com/author/show/884320.Ondjaki">Ondjaki</a><br/>
My rating: <a href="https://www.goodreads.com/review/show/1049017329">4 of 5 stars</a><br /><br />
Li a edição “Frente e Verso” da visão em que estavam contidas duas obras de Ondjaki: uma de prosa, “O Assobiador”, e uma de poesia, “Há Prendizajens com o Xão”.<br><br>De “O Assobiador” retenho sobretudo a soberba “reinvenção” da linguagem e momentos tão belos quanto este:<br><br>“As águas do lago haviam-se transformado num perigoso mar de lâminas encarnadas, naquela que era uma experiência enternecedora para quem a tivesse vivido: o sol, ao embater nas catorze mil ondinhas refeitas pelo vento, desmultiplicava o seu brilho, dando a cada escarpa aquática uma aura própria e pontiaguda, ofuscante e brilhantosa, lisa e laminar.<br>Era evidente, para olhos e corações, que o mundo assim tão colorido destilava imagens brutalmente simples de ternura” (P.117)<br><br>Quanto a “Há Prendizajens com o Xão”, socorro-me da análise cerebral de Manoel de Barros:<br><br>“Há em você a consciência plena de que a poesia se faz abandonando as sintaxes acostumadas e criando outras. São as palavras que guardam a poesia, não os episódios. Palavra poética não serve para expressar ideias – serve para cantar, celebrar.”<br>E acrescento uma observação mais arrebatada para exprimir que os poemas são maravilhosos! poemas como este “Que sabes tu do eco do silêncio?”:<br><br>“um só olhar<br>pode ser uma voz não dita.<br>para acumular dores<br>o mais das vezes<br>bastou um desamor.<br>sei: a solidão<br>ecoa de modo muito silencioso.<br>sei: muita silenciosidade<br>pode reciprocar<br>verdadeiros corpos num amor.<br>um só silêncio<br>pode ser nossa voz não dita<br>ainda nunca dita.<br>para ecoar um silêncio<br>bastou gritarmo-nos para cá dentro<br>num gritar aprofundo.<br>já silenciar um eco<br>é missão para uma toda vida:<br>exige repensação da própria existência.”<br><br>Uma nota especial para a espécie de glossário denominado “Bichos convidados (de a a z)”, com a caracterização poetizada e tremendamente divertida dos bichos intervenientes nos poemas como, neste caso, o sapo:<br><br>“sapo: vive em ânsias de ser beijado por princesas. acredita em vidas passadas, onde julga ter sido príncipe. mestre de cantoria e sapiência. pratica a perigosa arte de encher balões em suas próprias bochechas. gosta de quebrar silêncios da noite.”<br>
<br/><br/>
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09/01/15

O Turno

O TurnoO Turno by Luigi Pirandello
My rating: 4 of 5 stars

“O Turno” foi a minha primeira abordagem à obra de Luigi Pirandello e não podia ter começado melhor.

A forma como o autor faz convergir tragédia e comédia só pode ser apelidada de brilhante neste pequeno romance que é o retrato de uma época, da cidade de Agrigento e de pessoas em busca de uma identidade hesitante.


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O Último Cabalista de Lisboa

O Último Cabalista de LisboaO Último Cabalista de Lisboa by Richard Zimler
My rating: 3 of 5 stars

História muito interessante, bom enquadramento histórico e uma personagem principal convincente.

Ainda assim, não me revi completamente na escrita de Richard Zimler. Pareceu-me ser demasiado cerebralizada, demasiado pensada e eu esperava algo mais natural, mais fluido…

Mas é, com toda a certeza, um autor a reencontrar.


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Drácula

DraculaDracula by Bram Stoker
My rating: 4 of 5 stars

Para quem já teve oportunidade de ver algumas adaptações cinematográficas do “Drácula” de Bram Stoker ficará por certo algo surpreendido com o conteúdo do livro, não por revelar ausência de qualidade, mas porque apesar de toda a ação decorrer em torno da personagem Conde Drácula (das suas ações) sentimo-la mais distante, com motivações mais obscuras e mundanas, sem aquela paixão e fulgor com que me habituei a encará-lo (mesmo naquela primeira brilhante versão cinematográfica de 1922 realizada por Friedrich Wilhelm Murnau – “Nosferatu”).

O elo, a ligação para além da morte entre Mina e Drácula, força motriz da história na fantástica adaptação de Coppola perde-se e resume-se a uma união de forças entre amigos para salvar Mina depois da tragédia ocorrida com Lucy…

Apesar das diferenças que me surpreenderam, é um livro fantástico, escrito num formato interessante (romance epistolar) e com passagens de um espantoso lirismo, muitas das quais aqui reproduzi durante a minha leitura pelo que me parece mais que justo terminar esta “jornada” com uma última citação que reflete o “espírito” desta invulgar e apaixonante obra:

“The Castle of Dracula now stood out against the red sky, and every stone of its broken battlements was articulated against the light of the setting sun.”


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