26/11/14

A Pirâmide

A PirâmideA Pirâmide by Ismail Kadare
My rating: 2 of 5 stars

“A Pirâmide” de Ismaïl Kadaré relata as circunstâncias e motivações que impulsionaram a construção da maior e mais antiga das três pirâmides de Gizé, a Pirâmide de Quéops.

Bem sei que o intuito do autor não era propriamente explorar a questão histórica (que para mim teria sido tão mais interessante…), mas sim revelar a construção da pirâmide como o fruto de um regime totalitário que dominava em absoluto as vidas dos egípcios, condenando-os a uma inescapável forma de escravidão (gerações atrás de gerações atrás de gerações…).

O período de 20 anos que demorou a edificação da Pirâmide de Quéops representou um espaço de tempo avassalado por um histerismo colectivo sem precedentes com constantes denúncias sobre hipotéticas conjuras contra o Faraó e consequentes punições caraterizadas por uma crueldade sem limites…

Apesar do potencial inerente à ideia base, o autor não consegue harmonizar o texto de forma a tocar o leitor. A narrativa é estanque, muitas vezes desinteressante (o que para mim é inédito no que toca a um tema que me é caro…) e Kadaré parece escrever para si próprio. Não há uma verdadeira partilha com o leitor ou pelo menos eu não a senti.


View all my reviews

22/11/14

Crimes

CrimesCrimes by Ferdinand von Schirach
My rating: 4 of 5 stars

11 histórias.
11 crimes.
11 culpados?

Nem sempre o que parece é e Ferdinand Von Schirach demonstra-o com simplicidade e de forma magistral. Por detrás de um crime há sempre uma história. Nem sempre linear. E há pessoas. Vítimas e carrascos.

Uma das histórias que mais me comoveu foi “Verde”, o relato dos estranhos crimes perpetrados por um jovem esquizofrénico que quando olhava para as pessoas via números. Literalmente. E ele, Philipp, como se via a si próprio?

“No final da visita Philipp acompanhou-me até ao portão. Nesse momento já só era um rapazinho solitário, triste e acossado pelos seus medos. Foi então que disse: - Tu nunca me perguntaste qual é o meu número.
- É verdade. E então que número és tu?
- Verde – disse, e, virando-se, começou a andar de regresso à clínica.” (P. 150)

A leitura deste livro foi mais um passo dado na minha convicção de que é impossível captar na totalidade a essência da natureza humana. Afinal, o que somos nós?


View all my reviews

17/11/14

O Grande Gatsby

O Grande GatsbyO Grande Gatsby by F. Scott Fitzgerald
My rating: 3 of 5 stars

“O Grande Gatsby” é a personagem mais dolorosamente bem conseguida da obra e pela qual é difícil não sentir empatia porque os desejos, as ambições de Gatsby eram os mais simples, os mais genuínos, os mais inocentes. E por isso ele é Grande, não pela opulência em que vivia.

Mas a verdade é que eu queria mais Jay Gatsby.

A aura de mistério que o rodeia no início do livro arrasta-se com ele até ao seu destino último. Tudo permanece toldado por uma névoa suficientemente densa para não conseguirmos encarar Gatsby como “real”, confundindo-se ele próprio com essa névoa que se movimenta, invisível, para o arrebatar.

Jay Gatsby é refém do passado, de uma crença na inevitabilidade da concretização do Amor e a sua lealdade para com Daisy é tão mais bela quanto impossível de ser correspondida por alguém com raízes unicamente no presente… Nas últimas 30 páginas Daisy desaparece de cena (e o livro ilumina-se de tragédia… Embora a obscura Daisy já viesse entoando o canto da sereia), abandona Gatsby ao seu sonho irrealizável mas ele nunca se cansa de olhar “… a luz verde que brilhava na ponta do molhe de Daisy.”, essa luz que o embala num sono esmeraldino, hipnótico, penelopiano…

Na minha opinião, muito mais do que o retrato da América dos anos 20, “O Grande Gatsby” é o retrato de um pobre homem rico, de um menino frágil que nunca deixou de acreditar no Amor, na absoluta lógica da espera.

“Ali sentado na areia a meditar nesse outro mundo antigo e desconhecido, imaginei o espanto do Gatsby, quando, pela primeira vez, identificou a luz verde que brilhava na ponta do molhe da Daisy. Tinha vindo de longe para chegar a este relvado azul, e o sonho dever ter-lhe parecido tão próximo que só dificilmente poderia escapar ao seu abraço. Não sabia que o sonho era já uma coisa do passado, atrás dele, perdido algures na vasta obscuridade para além do clarão da cidade, onde os vastos plainos da República se desenrolavam sem fim sob o céu estrelado.” (P.184)

Não me esquecerei da candura genuína de Gatsby mas “O Grande Gatsby” é um livro pontilhado por alguns desequilíbrios. Ali encontrei brilhantismo e medianismo. Um pouco à semelhança de Gatsby, F. Scott Fitzgerald parece ter sonhado para este livro algo que não conseguiu concretizar em pleno… Momentos houve em que me soou ao esboço de algo maior.

“O Gatsby acreditara na luz verde, no orgíaco futuro que, ano após ano, foge e recua diante de nós. Se hoje nos iludiu, pouco importa: amanhã correremos mais depressa, alongaremos mais os braços… Até que uma bela manhã…” (P.184)


View all my reviews

15/11/14

Quem me dera ser onda

Quem me dera ser ondaQuem me dera ser onda by Manuel Rui
My rating: 4 of 5 stars

Quem me dera ser onda e correr mundo e mares e rebolar na areia transformada em espuma e esquecer que o mundo é dos adultos...

O tom sensível de “Quem me dera ser onda” é exclusivo das crianças para quem Carnaval da Vitória não é apenas um porco que o pai trouxe para casa para engordar, matar, comer.

Carnaval da Vitória é amor desinteressado.

Carnaval da Vitória é a inocência perdida de um país.


View all my reviews

Rebeldes

RebeldesRebeldes by Sándor Márai
My rating: 3 of 5 stars

Em comum: A deriva.

A ausência dos pais que partiram para a guerra corresponde à sua incapacidade de encontrar um lugar no mundo. Eles combatem numa Guerra Mundial e os jovens sonham um mundo impossível. Forjam recordações. Embriagam-se numa obstinação sem objectivo. Há que crescer. Há que partir para a guerra. Há que rebelar-se.

Os homens que não partiram ou os que regressaram da guerra são os mutilados mental e fisicamente. Os que se instalam nas suas vidas. Que pregam verdades absurdas em tom apocalíptico. Profetas teatrais de insuspeitadas dissonâncias.

O medo da descoberta. O nonsense de uma vida sem rumo clama pelo sacrifício.

E que importa a morte ou a vida quando se habita nas águas turvas e agitadas que desabam do céu?


View all my reviews

11/11/14

Vertigens. Impressões

Vertigens. ImpressõesVertigens. Impressões by W.G. Sebald
My rating: 4 of 5 stars

Elucubrações produzidas por um homem-sombra, memórias, viagens em que se cruza com os fantasmas do (seu) passado. A morte é um sonho, um caminho, um incêndio voraz, um penhasco devorador, a neve que não derrete.

Desconcertante.

“Nos meus tempos livres, disse Salvatore, refugio-me na prosa como numa ilha. Passo o dia todo no meio da azáfama da redacção, mas à noite instalo-me na minha ilha e quando começo a ler as primeiras frases, é como se fosse a remar pelo mar fora.” (P.101)


View all my reviews

05/11/14

Corações na Penumbra

Corações na PenumbraCorações na Penumbra by Edith Wharton
My rating: 3 of 5 stars

Um pequeno romance (praticamente uma novela) no qual ficam bem vincadas as diferenças basilares entre a velha aristocracia europeia (detentora de uma falsa moral e de um snobismo gritantes) e a burguesia norte-americana (autêntica, flexível e moralmente incorruptível).

Madame de Treymes é a representante dessa nobreza europeia fundada em falsos pressupostos religiosos e morais, e John Durham é o americano abastado que tenta libertar Madame de Malrive (a Fanny Frisbee da sua infância) de um casamento destruído.

A complexidade do carácter de Madame de Treymes, cunhada de Fanny, é bem explorada ao longo de “Corações na Penumbra”… Se num momento se revela como a mais enganadora das aliadas, no outro redime-se e arrepende-se (ou assim pensamos) com uma lágrima que rola pela sua face delgada… Uma pobre boa mulher que castigara o suficiente um pobre bom homem.

Interessante, sem dúvida, mas uma amostra escassa do que acredito ser o inegável talento de Edith Wharton.


View all my reviews

04/11/14

Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino

Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino (Grandes Narrativas, #230)Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino by Patricia Cornwell
My rating: 2 of 5 stars

Patricia Cornwell apresenta na obra “Jack, o Estripador – Retrato de um Assassino”, o que eu considero ser apenas “mais uma” teoria acerca da identidade de Jack, o Estripador.
Não apreciei a estrutura narrativa do livro que pretende ser um “documento” em que se deslinda a identidade do homem que cometeu a série de assassínios brutais no East End de Londres (e possivelmente noutros locais) a partir de 1888… As ideias, os factos, as asserções por vezes não têm grande ligação entre si, sendo introduzidos um pouco ao acaso (ou pelo menos assim parece…).
Este deveria ser um livro com um ritmo bem mais cadenciado do que aquele com que me deparei e deveria apresentar novos dados absolutamente convincentes que provocassem no leitor a desconfortável sensação de que um mistério com mais de 100 anos tinha finalmente sido desvendado contudo, na minha opinião, o ritmo é irregular e a autora faz demasiadas suposições, utiliza demasiadas vezes a expressão “não sei” o que me parece uma clara inconsistência para quem afirma no fim da obra “… ele foi apanhado.”.
É certo que são revelados alguns interessantes dados “físicos” relativos, por exemplo, às marcas de água dos papéis de carta utilizados pelo estripador nas cartas enviadas à polícia e jornais que, por coincidência ou não, correspondem aos utilizados pelo pintor Walter Richard Sickert, o Jack, o Estripador de Patricia Cornwell. Mas depois há tantas suposições, tantas conjecturas, tantas hipóteses sem base suficientemente sólida que não consegui “agarrar” esta teoria.
Já tive acesso a várias teorias a respeito da identidade de Jack, o Estripador e esta revelou-se como apenas mais uma que, muito honestamente, não me convenceu.



View all my reviews

Herzog

HerzogHerzog by Saul Bellow
My rating: 4 of 5 stars

Um livro que me deu muita luta… Agradeço-lhe por isso caro Sr. Moses E. Herzog.

Esta é a auto-análise obsessiva de um homem à procura de um rumo, um rumo que fatalmente encontra nas mulheres, um equívoco ao qual regressa sempre como se fosse um retorno ao útero materno. A tragicomédia de Herzog.

Herzog busca tranquilidade num mundo corrompido, num mundo que o encara como insano e escreve compulsivamente cartas sobre tudo e sobre nada para criar um ponto de equilíbrio e estabilidade na sua vida desmoronada. Desbrava o caminho escrevendo e no fim, saciado, regressado à origem possível, encontra, finalmente, a paz no silêncio.

“Posso não estar bom da cabeça, mas tudo me parece claro.” (P.366)

Admito que não seja fácil gostar deste livro. Talvez o tenha lido no momento certo.


View all my reviews