02/10/14

A Ilha de Sacalina - Notas de Viagem

A Ilha de SacalinaA Ilha de Sacalina by Anton Chekhov
My rating: 4 of 5 stars

Nestas notas da viagem que Tchékhov fez à colónia penal da Ilha de Sacalina em 1890 são-nos descritas de forma pormenorizada todas as incidências da vida dos condenados e condenadas (e por vezes das famílias que os acompanham...), dos deportados, dos colonos, das populações nativas e dos funcionários da colónia penitenciária.

Trata-se de uma visão pessoal do autor resultante da constatação dos factos in loco e de uma análise baseada em relatos anteriores a respeito da ilha delineados por aventureiros, oficiais, funcionários do estado, padres e médicos que por ali passaram. Temos, assim, acesso a um documento precioso pela quantidade e relevância da informação transmitida, maravilhosamente transmitida pelo génio sensível, atento e humano de um escritor como Tchékhov.

É particularmente comovente a forma como a palavra "saudade" se difunde no relato... A saudade de quem se sabe perdido nas névoas gélidas e impenetráveis de uma ilha de pesadelo, tão próxima e tão distante da Mãe-Rússia. E é a saudade, um desespero silencioso e a vontade férrea de "sentir" a liberdade que impelem um grande número de prisioneiros a tentar a fuga:

"Uns evadem-se, esperando andar em liberdade uma semana ou um mês; outros contentam-se só com um dia. Um dia apenas, mas que seja meu!" (P. 261)

A brutalidade dos castigos corporais praticados (chicotadas) perturba o autor, afasta-o por momentos do cenário que classifica de repugnante mas, ainda assim, fá-lo regressar para impor o seu relato fidedigno ao leitor (parece sentir-se moralmente obrigado a tal...) a quem se dirige, aliás, com frequência:

"Vou para a rua, onde o silêncio é cortado pelos gritos lancinantes que vêm da sala dos guardas e que se devem ouvir, julgo eu, por toda a cidade. Um deportado à paisana passa na rua, olha de relance para a sala dos vigilantes e no seu rosto e até no seu andar transparece o medo. Entro de novo na sala, volto a sair... O inspector continua a contar." (P.255)

Sadicamente apreciados por um enfermeiro militar que insiste para assistir à aplicação do castigo, rematando no final:

"- Eu gosto de assistir a isto! - diz-me o enfermeiro militar, com um ar satisfeito, encantado por ter podido desfrutar deste repugnante espectáculo." (P.255)

Assombrou-me também a forma como as pessoas eram reduzidas a "nada", a pó, tanto em vida como depois de mortas:

"As pequenas cruzes das campas dos deportados são todas iguais e todas anónimas. (...) mas de todos esses homens que repousam sob aquelas pequenas cruzes, desses homens que mataram, que arrastaram correntes, que se evadiram, ninguém terá necessidade de se lembrar deles. Talvez, em algum lugar da estepe ou da floresta russa, junto a uma fogueira, um velho carroceiro levado pelo aborrecimento conte os crimes de um bandido da sua aldeia. Então o seu interlocutor olhará para a escuridão e sentirá um arrepio, uma ave nocturna piará, e nisso consistirá toda a recordação." (P.233)

Também a forma como as mulheres eram "comercializadas" na ilha é chocante e o autor não nos poupa à cruel realidade do seu destino, um destino ao serviço do homem, para satisfação de todas as necessidades do homem. Escravas das suas determinações. Foi com especial asco que li essas terríveis páginas...

Em resumo, uma leitura densa mas, na minha perspectiva, essencial para penetrar na(s) mentalidade(s) russa(s) daquele final de século (com grandes mudanças no horizonte) e para conhecer melhor as ideias e convicções de um homem chamado Anton Tchékhov que um dia decidiu embarcar rumo a Sacalina.


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