21/10/14

Não te deixarei morrer, David Crockett

Não Te Deixarei Morrer, David CrockettNão Te Deixarei Morrer, David Crockett by Miguel Sousa Tavares
My rating: 4 of 5 stars

“Não te deixarei morrer, David Crockett” é um conjunto de crónicas de Miguel Sousa Tavares reunidas sob um denominador comum: As memórias nostálgicas do que foi e já não é mas que teimosamente insiste em sobreviver à passagem do tempo, qual tesouro sepultado em parte incerta revelado, por entre teias de aranha e pó, por um fiel guardião que cuidadosamente vela pela sua perpetuidade.
O autor arrebata-nos para junto de si num tom intimista e confessional onde não raras vezes nos dá a conhecer fatos da sua vida familiar, alguns que remontam à infância, outros à vida adulta. A suavidade da meninice. As agruras do homem feito.
E depois há os outros. Os inventados e os reais. Os mais conhecidos e os anónimos. Pessoas que marcaram a sua vida de uma ou outra forma, que cinzelaram os seus nomes no mural rascunhado das suas memórias.
Apesar de ter gostado de todas as crónicas, destaco “Os Pascoaes de Amarante”, uma crónica sobre o Clã Pascoaes que pincela as vidas dos 6 irmãos Teixeira de Vasconcelos (conhecidos como Pascoaes) nos quais está incluído o poeta Teixeira de Pascoaes. As vidas de todos tiveram como pano de fundo o Marão mas houve um, João, o caçador, que foi mandado pelo avô para Angola por “… ter assinalado a sua entrada na inevitável Faculdade de Direito de Coimbra, com uma monumental zaragata, em plena cerimónia das praxes, durante a qual agarrou numa moca e abriu a cabeça a onze estudantes.”.
E assim inicia uma vida aventurosa em África para regressar dez anos passados e viver toda uma vida a ansiar pelas planícies africanas: “O resto da vida ocupou-a a restaurar a sua casa, a cuidar das suas propriedades, a criar dois filhos, a escrever as suas memórias de África, para ver se calava as saudades. Tudo em vão: não se regressa nunca de África. Ele sempre o soubera. Apenas se enganava a si próprio, vagueando pela casa atulhada de recordações de Angola, subindo a escadaria entre dentes de marfim, lanças, máscaras, punhais, cabeças embalsamadas de feras, até se ir estender na cama do quarto para uma sesta com que fingia estar a viver a hora do calor em África, ali, no frio mineral do Marão. Um dia não acordou da sesta, já estava longe, muito longe: provavelmente é o único dos irmãos que não encontrou descanso no cemitério de Amarante. He had a life in Africa…“.
Tudo é efémero mas as memórias são eternas.


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16/10/14

Os Cães

Os CãesOs Cães by Ola Nilsson
My rating: 4 of 5 stars

Num portentoso retrato humano retirado de uma tenebrosa Suécia, Ola Nilsson apresenta-nos vidas despedaçadas aos 14 anos. Pequenas (grandes!) tragédias pessoais povoam as curtas vidas de 5 personagens adolescentes, unidas por um irremediável desprendimento pela existência. Respirar, dar um passo, tomar uma decisão, olhar o outro nos olhos é uma morte lenta, um gradual afundar em areias movediças, um afogar-se nas trevas da floresta de troncos invisíveis que juncam o rio perdido. Corpos enlutados de si próprios, à deriva num mar de olvido, náufragos de uma náusea constante pela vida. E a salvação, o adormecimento pelo álcool.

Casa é a ponte, ponto de encontro, encruzilhada onde é semeado um caixão flutuante que demarca o território da morte. A matilha agrupa-se em torno das suas fraquezas refugiada no abrasador calor do vício. E olha mas não vê. E ri-se mas os lábios não se movem. E abraça-se mas não se toca. Abandonam-se e são abandonados, os jovens enrugados. Cães. Lobos.


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14/10/14

A Troca

A TrocaA Troca by David Lodge
My rating: 4 of 5 stars

“A Troca” de David Lodge é uma divertida narrativa sobre um intercâmbio universitário de professores decorrida em 1969: O inglês Philip Swallow da Universidade de Remexe vai lecionar seis meses na Universidade de Euforia e o americano Morris Zapp da Universidade de Euforia parte durante seis meses para a Universidade de Remexe.

São seis meses em que as vidas dos dois homens se sobrepõem ante o olhar ávido do leitor que segue com entusiasmo as peripécias de Philip numa universidade americana em pé de guerra e as peripécias de Morris numa pacata e obscura universidade inglesa que começa a despertar para o mundo.

Também as vivências amorosas dos dois homens se entrelaçam com uma reveladora troca de parceiras que, se por um lado é indicadora da debilidade dos relacionamentos estabelecidos com as respectivas mulheres, por outro apimenta essas relações aparentemente esmorecidas na “cimeira” de Nova Iorque...

O livro satiriza o mundo universitário dos dois lados do Atlântico expondo um choque de culturas que, na realidade, e por fim, se revelam complementares (tal como os relacionamentos – aventa-se a hipótese de viverem numa inédita comunhão conjugal a quatro!) e David Lodge fá-lo com mestria e um humor perene (o livro foi editado em 1975) até ao plano final. A vida destes dois dava um filme.


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09/10/14

O Rapaz Perdido

O Rapaz PerdidoO Rapaz Perdido by Thomas Wolfe
My rating: 4 of 5 stars

Esta é a história contada a várias vozes de um menino exemplar, Grover, que viu a sua vida bruscamente interrompida aos 12 anos, um rapaz prematuramente perdido pela família que o recorda com emoção reconstituindo alguns momentos da sua breve existência.

Conhecemos Grover através de fragmentos dispersos compostos pelas várias vozes que o evocam e na qual está incluído o autor e irmão do rapaz perdido. Gostei sobretudo do primeiro e do último capítulo da novela: no primeiro acompanhamos as deambulações de Grover pelas lojas da cidade e assistimos a um episódio a um tempo repugnante e belo, tudo descrito numa linguagem de grande delicadeza poética ("A luz invadiu de novo o dia."); no último, acompanhamos a deambulação do autor pelos locais da sua infância com o objectivo único de encontrar a casa onde a família tinha vivido durante algum tempo e rever o quarto onde o irmão tinha morrido. O rapaz perdido tinha partido no quarto onde agora dormiam dois rapazinhos, irmãos da proprietária da casa. Nesta busca de uma identidade ofuscada pelos anos, Thomas Wolfe compreendeu:

"E, assim, tudo encontrando, soube que tudo se perdera."

Um pequeno livro muito bonito que sobressalta e angustia. A impotência humana face à estranha des(ordem) do universo.


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08/10/14

O Relatório de Brodeck

O Relatório de BrodeckO Relatório de Brodeck by Philippe Claudel
My rating: 5 of 5 stars

Doloroso. Belo. Perfeito.

Nem uma palavra sublinhada ao longo de todo o livro (não há frase que não mereça essa "honra").

É impossível olhar o mundo com os mesmos olhos depois deste livro.

É ainda com o coração alvoroçado que assumo que a culpa é toda minha. Eu é que quis (muito) ler este livro.

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02/10/14

A Ilha de Sacalina - Notas de Viagem

A Ilha de SacalinaA Ilha de Sacalina by Anton Chekhov
My rating: 4 of 5 stars

Nestas notas da viagem que Tchékhov fez à colónia penal da Ilha de Sacalina em 1890 são-nos descritas de forma pormenorizada todas as incidências da vida dos condenados e condenadas (e por vezes das famílias que os acompanham...), dos deportados, dos colonos, das populações nativas e dos funcionários da colónia penitenciária.

Trata-se de uma visão pessoal do autor resultante da constatação dos factos in loco e de uma análise baseada em relatos anteriores a respeito da ilha delineados por aventureiros, oficiais, funcionários do estado, padres e médicos que por ali passaram. Temos, assim, acesso a um documento precioso pela quantidade e relevância da informação transmitida, maravilhosamente transmitida pelo génio sensível, atento e humano de um escritor como Tchékhov.

É particularmente comovente a forma como a palavra "saudade" se difunde no relato... A saudade de quem se sabe perdido nas névoas gélidas e impenetráveis de uma ilha de pesadelo, tão próxima e tão distante da Mãe-Rússia. E é a saudade, um desespero silencioso e a vontade férrea de "sentir" a liberdade que impelem um grande número de prisioneiros a tentar a fuga:

"Uns evadem-se, esperando andar em liberdade uma semana ou um mês; outros contentam-se só com um dia. Um dia apenas, mas que seja meu!" (P. 261)

A brutalidade dos castigos corporais praticados (chicotadas) perturba o autor, afasta-o por momentos do cenário que classifica de repugnante mas, ainda assim, fá-lo regressar para impor o seu relato fidedigno ao leitor (parece sentir-se moralmente obrigado a tal...) a quem se dirige, aliás, com frequência:

"Vou para a rua, onde o silêncio é cortado pelos gritos lancinantes que vêm da sala dos guardas e que se devem ouvir, julgo eu, por toda a cidade. Um deportado à paisana passa na rua, olha de relance para a sala dos vigilantes e no seu rosto e até no seu andar transparece o medo. Entro de novo na sala, volto a sair... O inspector continua a contar." (P.255)

Sadicamente apreciados por um enfermeiro militar que insiste para assistir à aplicação do castigo, rematando no final:

"- Eu gosto de assistir a isto! - diz-me o enfermeiro militar, com um ar satisfeito, encantado por ter podido desfrutar deste repugnante espectáculo." (P.255)

Assombrou-me também a forma como as pessoas eram reduzidas a "nada", a pó, tanto em vida como depois de mortas:

"As pequenas cruzes das campas dos deportados são todas iguais e todas anónimas. (...) mas de todos esses homens que repousam sob aquelas pequenas cruzes, desses homens que mataram, que arrastaram correntes, que se evadiram, ninguém terá necessidade de se lembrar deles. Talvez, em algum lugar da estepe ou da floresta russa, junto a uma fogueira, um velho carroceiro levado pelo aborrecimento conte os crimes de um bandido da sua aldeia. Então o seu interlocutor olhará para a escuridão e sentirá um arrepio, uma ave nocturna piará, e nisso consistirá toda a recordação." (P.233)

Também a forma como as mulheres eram "comercializadas" na ilha é chocante e o autor não nos poupa à cruel realidade do seu destino, um destino ao serviço do homem, para satisfação de todas as necessidades do homem. Escravas das suas determinações. Foi com especial asco que li essas terríveis páginas...

Em resumo, uma leitura densa mas, na minha perspectiva, essencial para penetrar na(s) mentalidade(s) russa(s) daquele final de século (com grandes mudanças no horizonte) e para conhecer melhor as ideias e convicções de um homem chamado Anton Tchékhov que um dia decidiu embarcar rumo a Sacalina.


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