23/09/14

Sem Sangue

Sem SangueSem Sangue by Alessandro Baricco
My rating: 3 of 5 stars

Talvez demasiado breve para a profundidade psicológica do que é narrado...

Senti sinceramente que eram necessárias mais páginas para abarcar aquele desfecho que tem tanto de absurdo como de belo.

"Então pensou que, por incompreensível que a vida seja, provavelmente a atravessamos com o único desejo de regressar ao inferno que nos gerou, e de habitar ao lado de quem, uma vez, nos salvou desse inferno. Tentou perguntar a si mesma de onde viria aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu que não tinha respostas. Entendia apenas que nada é mais forte que esse instinto de voltarmos onde nos fizeram em pedaços, e de repetir esse instante ao longo dos anos. Pensando apenas que quem nos salvou uma vez o poderá fazer sempre. Num longo inferno idêntico àquele de onde vimos. Mas subitamente clemente. E sem sangue.

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19/09/14

As Dez Figuras Negras

As Dez Figuras NegrasAs Dez Figuras Negras by Agatha Christie
My rating: 4 of 5 stars

Enredo muito bem montado (não... não descobri quem era o/a responsável pelas mortes...), ambiência fantástica, notável trabalho psicológico das personagens e um desfecho que não podia ter sido melhor.

Há um começo que prenuncia, desde logo, um fim trágico:

"Havia qualquer coisa de mágico numa ilha - só a palavra sugeria fantasia. Perdia-se o contacto com o mundo - uma ilha era, só por si, um mundo. Um mundo, talvez, sem retorno." (P.28/29)


E há um fim que enuncia a tragicidade do próprio género humano:

"Mas nenhum artista, compreendo agora, pode retirar satisfação unicamente da arte. Existe um anseio natural por reconhecimento que não se pode desmentir.
Sinto, permitam-me que o confesse com toda a humildade, um lamentável desejo humano de que alguém saiba como fui inteligente..." (p. 189)

Uma leitura deliciosa, uma Agatha Christie no seu melhor!


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16/09/14

Mistérios

MistériosMistérios by Knut Hamsun
My rating: 4 of 5 stars

Um livro indispensável que apresenta ao leitor uma das mais desconcertantes personagens da história da literatura, Johan Nielsen Nagel, um excêntrico que desembarca numa pequena cidade norueguesa sem uma intenção pré-definida acabando por expor o seu carácter inconstante, inventivo e auto-destrutivo ao mesmo tempo que "descarna" os mistérios que povoam a cidade e que assombram os seus habitantes...

Bem, e que dizer de Grogaard, o Anão? E da mulher alta e esguia com o crucifixo de pedras verdes? Mistérios, verdadeiramente...

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11/09/14

Norwegian Wood

Norwegian WoodNorwegian Wood by Haruki Murakami
My rating: 4 of 5 stars

A vida é um sopro.

Ora gélido e invernoso,
Ora cálido e primaveril.

Os epitáfios dos adolescentes
Rezam uma idade eterna,
A banda sonora dos que ficam
Empurra-os para um denso bosque coberto de neve
Onde a dor é suportada na primavera da vida.

Toru Watanabe deixa-se consecutivamente atrair por triângulos amorosos onde não há intriga nem disputa, apenas a partilha de uma mesma voz. Mas quando se torna no protagonista da sua vida, a sua lucidez estremece e não consegue encontrar o seu lugar no seu mundo. O mundo exterior por sua vez é muitas vezes encarado como acessório mas Watanabe vai-se encontrando em coisas tão pequenas mas tão carregadas de significado como a partilha de uma refeição com um homem moribundo. Toru quer sobretudo reconhecer-se na feérica Naoko, a sombra que paira sobre o bosque cerrado do seu inverno, ou na extravagante Midori, o raio de sol que penetra a densidade do bosque com a sua força imparável e primaveril.
Toru vai crescendo no conhecimento da dor da incerteza e da dor do que é a realidade da vida.
Assistimos à metamorfose de Toru, à sua passagem ao estado adulto e responsabilidades inerentes (e que responsabilidades ele assume!) e à sua libertação (?).
Somos donos do nosso destino mas às vezes é assustador pensar como a densidade dos bosques que encontramos pelo caminho obscurece e condiciona o nosso rumo…



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O Seminarista

O SeminaristaO Seminarista by Rubem Fonseca
My rating: 4 of 5 stars

Uma lufada de ar fresco...

Apesar do personagem central de "O Seminarista" ser um assassino profissional e por vezes sermos confrontados com descrições de crimes que nada têm de refrescante, a verdade é que a escrita de Rubem Fonseca marca pela simplicidade realista que roça a genialidade... A "trama" é bem urdida e o humor é espontâneo e inteligente.

É sempre bom constatar que a língua portuguesa nunca deixará de ser reinventada enquanto existirem autores como Rubem Fonseca.

"É isso: quando a aurora se apresenta de bianco vestita ela fica muito bonita na música de Leoncavallo e na voz de Caruso, mas na vida real fica insuportável. Ao contrário, o pôr do sol vai ganhando beleza continuamente, como no poema de Keats 'a thing of beauty is a joy forever, its loveliness increases', como aquela beleza que eu estava contemplando, o pôr do sol, que nunca agride, a menos que considere uma forma de agressão a melancolia que invade você na hora em que o crepúsculo se instala no mundo antecedendo a noite." (P.70)

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O Mundo Invisível

O Mundo InvisívelO Mundo Invisível by Katherine Webb
My rating: 4 of 5 stars

Um livro surpreendente. Comprei-o apenas com base numa sinopse que me pareceu interessante e ainda bem que arrisquei!

A prosa de Katherine Webb é simples mas poderosa, não raro deparando-nos com alguns momentos de grande beleza poética que me agradaram particularmente. Para além da escrita equilibrada e cativante, Katherine Webb presenteia o leitor com uma história bem engendrada e desenvolvida a um ritmo acertado, plena de personagens convincentes e sedutoras(A Cat Negra, a Cat Negra...) que nos enredam nas suas vidas, paixões e segredos.

Altamente recomendável.

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