20/12/14

A Christmas Carol

A Christmas CarolA Christmas Carol by Charles Dickens
My rating: 4 of 5 stars

"A Christmas Carol" é um livro obrigatório para quem aprecia esta época do ano ou para quem (acima de tudo!) se revê nos valores preconizados por Dickens na reveladora viagem de Ebenezer Scrooge às profundezas da sua alma.

View all my reviews

A Mão ao Assinar este Papel

A Mão ao Assinar Este PapelA Mão ao Assinar Este Papel by Dylan Thomas
My rating: 5 of 5 stars

Um livro perfeito.


And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

-----------------------------------------------

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
Com o homem no vento e na lua do poente;
Quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
Hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
Mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
Mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Ainda que, na roda da tortura, comecem
Os tendões a ceder, jamais se partirão;
Entre as suas mãos será destruída a fé
E, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
Embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
Onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
Erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
Ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
Como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
É no sol que irrompem até que o sol se extinga,
E a morte perderá o seu domínio.


View all my reviews

Byron e o Amor

Byron e o AmorByron e o Amor by Edna O'Brien
My rating: 4 of 5 stars

Óptimo pretexto para conhecer a personalidade complexa, voraz, brutal, excessiva, obscura e muitas vezes cruel de um dos maiores vultos da literatura mundial.

Edna O'Brien é mestre na separação entre realidade e lenda, baseando a obra na vasta troca de correspondência entre Byron e aqueles com quem se relacionou ou em relatos a seu respeito por parte dos que lhe eram mais próximos.

Mas por incrível que pareça, não poucas vezes a lenda coincide com a realidade, e confirmo que o carácter magnetizante de Lord Byron atravessou os séculos incólume!

View all my reviews

11/12/14

O Mesmo Mar

O Mesmo MarO Mesmo Mar by Amos Oz
My rating: 4 of 5 stars

Um romance que é um imenso poema de vozes que se entrelaçam, de vidas arrebatadas por outras vidas e pela morte, de recordações, de procura e de encontro… e de perda.
Amos Oz edifica “O Mesmo Mar” a partir de fragmentos de alma, de cintilações mudas, de ausências presentes, de epopeias interiores e o resultado é um fresco de vidas em busca de um sentido. Navegando o mesmo mar.

“Como uma corça ansiando pelas águas vivas, assim a minha alma.
E dois ciprestes movem-se de cá para lá em silenciosa devoção.
Como as águas cobrem o mar, as águas impetuosas passaram por cima:
Passaram-se foram-se, e já não são. Volta ao teu repouso alma minha.
Onde está o teu repouso?
Responde, alma minha: para onde voltarás,
Por que ansiarás, como uma corça? A cafeteira está a assobiar.
É tempo de um café. E se a luz que há em ti
Escurecer, que profunda será a escuridão. Está uma mosca
Presa entre o estore e a rede. A casa está vazia. Um tapete.
Um gato enroscado. Quando virei, quando surgirei? A luz é escuridão.
À beira da água estava uma corça e foi-se.”



View all my reviews

08/12/14

Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem

Da Natureza, Da arte e Da LinguagemDa Natureza, Da arte e Da Linguagem by Rainer Maria Rilke
My rating: 4 of 5 stars

Compilação de reflexões organizada tematicamente... Só para não me esquecer que Rilke é um dos "grandes" do século XIX/XX.

View all my reviews

07/12/14

O Doutor Jivago

O Doutor JivagoO Doutor Jivago by Boris Pasternak
My rating: 3 of 5 stars

As primeiras cento e tal páginas do livro prenderam-me, situaram-me, encantaram-me.

Depois, e apesar da escrita com lampejos poéticos belíssimos, a história começa a “desfigurar-se”, mais concretamente a história das personagens que seguíamos com interesse, para dar lugar à História maior da Rússia. Os traços caracterizadores das personagens permanecem incompletos para dar lugar às pinceladas bruscas que preenchem a tela da identidade russa (política, social, artística, natural) que emerge em toda a sua força relegando para segundo plano Iuri Jivago, Lara, Tonia, Antipov/ Strelnikov…

Quase me sinto culpada por não ter apreciado o livro para além das três estrelas mas depois ocorrem-me as palavras de Nabokov (exageradas, é certo, mas que acentuam na sua crueldade um pouco da impressão que me ficou…) sobre “O Doutor Jivago”:

"Doctor Zhivago is a sorry thing, clumsy, trite and melodramatic, with stock situations, voluptuous lawyers, unbelieveable girls, romantic robbers and trite coincidences."


View all my reviews

26/11/14

A Pirâmide

A PirâmideA Pirâmide by Ismail Kadare
My rating: 2 of 5 stars

“A Pirâmide” de Ismaïl Kadaré relata as circunstâncias e motivações que impulsionaram a construção da maior e mais antiga das três pirâmides de Gizé, a Pirâmide de Quéops.

Bem sei que o intuito do autor não era propriamente explorar a questão histórica (que para mim teria sido tão mais interessante…), mas sim revelar a construção da pirâmide como o fruto de um regime totalitário que dominava em absoluto as vidas dos egípcios, condenando-os a uma inescapável forma de escravidão (gerações atrás de gerações atrás de gerações…).

O período de 20 anos que demorou a edificação da Pirâmide de Quéops representou um espaço de tempo avassalado por um histerismo colectivo sem precedentes com constantes denúncias sobre hipotéticas conjuras contra o Faraó e consequentes punições caraterizadas por uma crueldade sem limites…

Apesar do potencial inerente à ideia base, o autor não consegue harmonizar o texto de forma a tocar o leitor. A narrativa é estanque, muitas vezes desinteressante (o que para mim é inédito no que toca a um tema que me é caro…) e Kadaré parece escrever para si próprio. Não há uma verdadeira partilha com o leitor ou pelo menos eu não a senti.


View all my reviews

22/11/14

Crimes

CrimesCrimes by Ferdinand von Schirach
My rating: 4 of 5 stars

11 histórias.
11 crimes.
11 culpados?

Nem sempre o que parece é e Ferdinand Von Schirach demonstra-o com simplicidade e de forma magistral. Por detrás de um crime há sempre uma história. Nem sempre linear. E há pessoas. Vítimas e carrascos.

Uma das histórias que mais me comoveu foi “Verde”, o relato dos estranhos crimes perpetrados por um jovem esquizofrénico que quando olhava para as pessoas via números. Literalmente. E ele, Philipp, como se via a si próprio?

“No final da visita Philipp acompanhou-me até ao portão. Nesse momento já só era um rapazinho solitário, triste e acossado pelos seus medos. Foi então que disse: - Tu nunca me perguntaste qual é o meu número.
- É verdade. E então que número és tu?
- Verde – disse, e, virando-se, começou a andar de regresso à clínica.” (P. 150)

A leitura deste livro foi mais um passo dado na minha convicção de que é impossível captar na totalidade a essência da natureza humana. Afinal, o que somos nós?


View all my reviews

17/11/14

O Grande Gatsby

O Grande GatsbyO Grande Gatsby by F. Scott Fitzgerald
My rating: 3 of 5 stars

“O Grande Gatsby” é a personagem mais dolorosamente bem conseguida da obra e pela qual é difícil não sentir empatia porque os desejos, as ambições de Gatsby eram os mais simples, os mais genuínos, os mais inocentes. E por isso ele é Grande, não pela opulência em que vivia.

Mas a verdade é que eu queria mais Jay Gatsby.

A aura de mistério que o rodeia no início do livro arrasta-se com ele até ao seu destino último. Tudo permanece toldado por uma névoa suficientemente densa para não conseguirmos encarar Gatsby como “real”, confundindo-se ele próprio com essa névoa que se movimenta, invisível, para o arrebatar.

Jay Gatsby é refém do passado, de uma crença na inevitabilidade da concretização do Amor e a sua lealdade para com Daisy é tão mais bela quanto impossível de ser correspondida por alguém com raízes unicamente no presente… Nas últimas 30 páginas Daisy desaparece de cena (e o livro ilumina-se de tragédia… Embora a obscura Daisy já viesse entoando o canto da sereia), abandona Gatsby ao seu sonho irrealizável mas ele nunca se cansa de olhar “… a luz verde que brilhava na ponta do molhe de Daisy.”, essa luz que o embala num sono esmeraldino, hipnótico, penelopiano…

Na minha opinião, muito mais do que o retrato da América dos anos 20, “O Grande Gatsby” é o retrato de um pobre homem rico, de um menino frágil que nunca deixou de acreditar no Amor, na absoluta lógica da espera.

“Ali sentado na areia a meditar nesse outro mundo antigo e desconhecido, imaginei o espanto do Gatsby, quando, pela primeira vez, identificou a luz verde que brilhava na ponta do molhe da Daisy. Tinha vindo de longe para chegar a este relvado azul, e o sonho dever ter-lhe parecido tão próximo que só dificilmente poderia escapar ao seu abraço. Não sabia que o sonho era já uma coisa do passado, atrás dele, perdido algures na vasta obscuridade para além do clarão da cidade, onde os vastos plainos da República se desenrolavam sem fim sob o céu estrelado.” (P.184)

Não me esquecerei da candura genuína de Gatsby mas “O Grande Gatsby” é um livro pontilhado por alguns desequilíbrios. Ali encontrei brilhantismo e medianismo. Um pouco à semelhança de Gatsby, F. Scott Fitzgerald parece ter sonhado para este livro algo que não conseguiu concretizar em pleno… Momentos houve em que me soou ao esboço de algo maior.

“O Gatsby acreditara na luz verde, no orgíaco futuro que, ano após ano, foge e recua diante de nós. Se hoje nos iludiu, pouco importa: amanhã correremos mais depressa, alongaremos mais os braços… Até que uma bela manhã…” (P.184)


View all my reviews

15/11/14

Quem me dera ser onda

Quem me dera ser ondaQuem me dera ser onda by Manuel Rui
My rating: 4 of 5 stars

Quem me dera ser onda e correr mundo e mares e rebolar na areia transformada em espuma e esquecer que o mundo é dos adultos...

O tom sensível de “Quem me dera ser onda” é exclusivo das crianças para quem Carnaval da Vitória não é apenas um porco que o pai trouxe para casa para engordar, matar, comer.

Carnaval da Vitória é amor desinteressado.

Carnaval da Vitória é a inocência perdida de um país.


View all my reviews

Rebeldes

RebeldesRebeldes by Sándor Márai
My rating: 3 of 5 stars

Em comum: A deriva.

A ausência dos pais que partiram para a guerra corresponde à sua incapacidade de encontrar um lugar no mundo. Eles combatem numa Guerra Mundial e os jovens sonham um mundo impossível. Forjam recordações. Embriagam-se numa obstinação sem objectivo. Há que crescer. Há que partir para a guerra. Há que rebelar-se.

Os homens que não partiram ou os que regressaram da guerra são os mutilados mental e fisicamente. Os que se instalam nas suas vidas. Que pregam verdades absurdas em tom apocalíptico. Profetas teatrais de insuspeitadas dissonâncias.

O medo da descoberta. O nonsense de uma vida sem rumo clama pelo sacrifício.

E que importa a morte ou a vida quando se habita nas águas turvas e agitadas que desabam do céu?


View all my reviews

11/11/14

Vertigens. Impressões

Vertigens. ImpressõesVertigens. Impressões by W.G. Sebald
My rating: 4 of 5 stars

Elucubrações produzidas por um homem-sombra, memórias, viagens em que se cruza com os fantasmas do (seu) passado. A morte é um sonho, um caminho, um incêndio voraz, um penhasco devorador, a neve que não derrete.

Desconcertante.

“Nos meus tempos livres, disse Salvatore, refugio-me na prosa como numa ilha. Passo o dia todo no meio da azáfama da redacção, mas à noite instalo-me na minha ilha e quando começo a ler as primeiras frases, é como se fosse a remar pelo mar fora.” (P.101)


View all my reviews

05/11/14

Corações na Penumbra

Corações na PenumbraCorações na Penumbra by Edith Wharton
My rating: 3 of 5 stars

Um pequeno romance (praticamente uma novela) no qual ficam bem vincadas as diferenças basilares entre a velha aristocracia europeia (detentora de uma falsa moral e de um snobismo gritantes) e a burguesia norte-americana (autêntica, flexível e moralmente incorruptível).

Madame de Treymes é a representante dessa nobreza europeia fundada em falsos pressupostos religiosos e morais, e John Durham é o americano abastado que tenta libertar Madame de Malrive (a Fanny Frisbee da sua infância) de um casamento destruído.

A complexidade do carácter de Madame de Treymes, cunhada de Fanny, é bem explorada ao longo de “Corações na Penumbra”… Se num momento se revela como a mais enganadora das aliadas, no outro redime-se e arrepende-se (ou assim pensamos) com uma lágrima que rola pela sua face delgada… Uma pobre boa mulher que castigara o suficiente um pobre bom homem.

Interessante, sem dúvida, mas uma amostra escassa do que acredito ser o inegável talento de Edith Wharton.


View all my reviews

04/11/14

Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino

Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino (Grandes Narrativas, #230)Jack, o Estripador - Retrato de um Assassino by Patricia Cornwell
My rating: 2 of 5 stars

Patricia Cornwell apresenta na obra “Jack, o Estripador – Retrato de um Assassino”, o que eu considero ser apenas “mais uma” teoria acerca da identidade de Jack, o Estripador.
Não apreciei a estrutura narrativa do livro que pretende ser um “documento” em que se deslinda a identidade do homem que cometeu a série de assassínios brutais no East End de Londres (e possivelmente noutros locais) a partir de 1888… As ideias, os factos, as asserções por vezes não têm grande ligação entre si, sendo introduzidos um pouco ao acaso (ou pelo menos assim parece…).
Este deveria ser um livro com um ritmo bem mais cadenciado do que aquele com que me deparei e deveria apresentar novos dados absolutamente convincentes que provocassem no leitor a desconfortável sensação de que um mistério com mais de 100 anos tinha finalmente sido desvendado contudo, na minha opinião, o ritmo é irregular e a autora faz demasiadas suposições, utiliza demasiadas vezes a expressão “não sei” o que me parece uma clara inconsistência para quem afirma no fim da obra “… ele foi apanhado.”.
É certo que são revelados alguns interessantes dados “físicos” relativos, por exemplo, às marcas de água dos papéis de carta utilizados pelo estripador nas cartas enviadas à polícia e jornais que, por coincidência ou não, correspondem aos utilizados pelo pintor Walter Richard Sickert, o Jack, o Estripador de Patricia Cornwell. Mas depois há tantas suposições, tantas conjecturas, tantas hipóteses sem base suficientemente sólida que não consegui “agarrar” esta teoria.
Já tive acesso a várias teorias a respeito da identidade de Jack, o Estripador e esta revelou-se como apenas mais uma que, muito honestamente, não me convenceu.



View all my reviews

Herzog

HerzogHerzog by Saul Bellow
My rating: 4 of 5 stars

Um livro que me deu muita luta… Agradeço-lhe por isso caro Sr. Moses E. Herzog.

Esta é a auto-análise obsessiva de um homem à procura de um rumo, um rumo que fatalmente encontra nas mulheres, um equívoco ao qual regressa sempre como se fosse um retorno ao útero materno. A tragicomédia de Herzog.

Herzog busca tranquilidade num mundo corrompido, num mundo que o encara como insano e escreve compulsivamente cartas sobre tudo e sobre nada para criar um ponto de equilíbrio e estabilidade na sua vida desmoronada. Desbrava o caminho escrevendo e no fim, saciado, regressado à origem possível, encontra, finalmente, a paz no silêncio.

“Posso não estar bom da cabeça, mas tudo me parece claro.” (P.366)

Admito que não seja fácil gostar deste livro. Talvez o tenha lido no momento certo.


View all my reviews

21/10/14

Não te deixarei morrer, David Crockett

Não Te Deixarei Morrer, David CrockettNão Te Deixarei Morrer, David Crockett by Miguel Sousa Tavares
My rating: 4 of 5 stars

“Não te deixarei morrer, David Crockett” é um conjunto de crónicas de Miguel Sousa Tavares reunidas sob um denominador comum: As memórias nostálgicas do que foi e já não é mas que teimosamente insiste em sobreviver à passagem do tempo, qual tesouro sepultado em parte incerta revelado, por entre teias de aranha e pó, por um fiel guardião que cuidadosamente vela pela sua perpetuidade.
O autor arrebata-nos para junto de si num tom intimista e confessional onde não raras vezes nos dá a conhecer fatos da sua vida familiar, alguns que remontam à infância, outros à vida adulta. A suavidade da meninice. As agruras do homem feito.
E depois há os outros. Os inventados e os reais. Os mais conhecidos e os anónimos. Pessoas que marcaram a sua vida de uma ou outra forma, que cinzelaram os seus nomes no mural rascunhado das suas memórias.
Apesar de ter gostado de todas as crónicas, destaco “Os Pascoaes de Amarante”, uma crónica sobre o Clã Pascoaes que pincela as vidas dos 6 irmãos Teixeira de Vasconcelos (conhecidos como Pascoaes) nos quais está incluído o poeta Teixeira de Pascoaes. As vidas de todos tiveram como pano de fundo o Marão mas houve um, João, o caçador, que foi mandado pelo avô para Angola por “… ter assinalado a sua entrada na inevitável Faculdade de Direito de Coimbra, com uma monumental zaragata, em plena cerimónia das praxes, durante a qual agarrou numa moca e abriu a cabeça a onze estudantes.”.
E assim inicia uma vida aventurosa em África para regressar dez anos passados e viver toda uma vida a ansiar pelas planícies africanas: “O resto da vida ocupou-a a restaurar a sua casa, a cuidar das suas propriedades, a criar dois filhos, a escrever as suas memórias de África, para ver se calava as saudades. Tudo em vão: não se regressa nunca de África. Ele sempre o soubera. Apenas se enganava a si próprio, vagueando pela casa atulhada de recordações de Angola, subindo a escadaria entre dentes de marfim, lanças, máscaras, punhais, cabeças embalsamadas de feras, até se ir estender na cama do quarto para uma sesta com que fingia estar a viver a hora do calor em África, ali, no frio mineral do Marão. Um dia não acordou da sesta, já estava longe, muito longe: provavelmente é o único dos irmãos que não encontrou descanso no cemitério de Amarante. He had a life in Africa…“.
Tudo é efémero mas as memórias são eternas.


View all my reviews

16/10/14

Os Cães

Os CãesOs Cães by Ola Nilsson
My rating: 4 of 5 stars

Num portentoso retrato humano retirado de uma tenebrosa Suécia, Ola Nilsson apresenta-nos vidas despedaçadas aos 14 anos. Pequenas (grandes!) tragédias pessoais povoam as curtas vidas de 5 personagens adolescentes, unidas por um irremediável desprendimento pela existência. Respirar, dar um passo, tomar uma decisão, olhar o outro nos olhos é uma morte lenta, um gradual afundar em areias movediças, um afogar-se nas trevas da floresta de troncos invisíveis que juncam o rio perdido. Corpos enlutados de si próprios, à deriva num mar de olvido, náufragos de uma náusea constante pela vida. E a salvação, o adormecimento pelo álcool.

Casa é a ponte, ponto de encontro, encruzilhada onde é semeado um caixão flutuante que demarca o território da morte. A matilha agrupa-se em torno das suas fraquezas refugiada no abrasador calor do vício. E olha mas não vê. E ri-se mas os lábios não se movem. E abraça-se mas não se toca. Abandonam-se e são abandonados, os jovens enrugados. Cães. Lobos.


View all my reviews

14/10/14

A Troca

A TrocaA Troca by David Lodge
My rating: 4 of 5 stars

“A Troca” de David Lodge é uma divertida narrativa sobre um intercâmbio universitário de professores decorrida em 1969: O inglês Philip Swallow da Universidade de Remexe vai lecionar seis meses na Universidade de Euforia e o americano Morris Zapp da Universidade de Euforia parte durante seis meses para a Universidade de Remexe.

São seis meses em que as vidas dos dois homens se sobrepõem ante o olhar ávido do leitor que segue com entusiasmo as peripécias de Philip numa universidade americana em pé de guerra e as peripécias de Morris numa pacata e obscura universidade inglesa que começa a despertar para o mundo.

Também as vivências amorosas dos dois homens se entrelaçam com uma reveladora troca de parceiras que, se por um lado é indicadora da debilidade dos relacionamentos estabelecidos com as respectivas mulheres, por outro apimenta essas relações aparentemente esmorecidas na “cimeira” de Nova Iorque...

O livro satiriza o mundo universitário dos dois lados do Atlântico expondo um choque de culturas que, na realidade, e por fim, se revelam complementares (tal como os relacionamentos – aventa-se a hipótese de viverem numa inédita comunhão conjugal a quatro!) e David Lodge fá-lo com mestria e um humor perene (o livro foi editado em 1975) até ao plano final. A vida destes dois dava um filme.


View all my reviews

09/10/14

O Rapaz Perdido

O Rapaz PerdidoO Rapaz Perdido by Thomas Wolfe
My rating: 4 of 5 stars

Esta é a história contada a várias vozes de um menino exemplar, Grover, que viu a sua vida bruscamente interrompida aos 12 anos, um rapaz prematuramente perdido pela família que o recorda com emoção reconstituindo alguns momentos da sua breve existência.

Conhecemos Grover através de fragmentos dispersos compostos pelas várias vozes que o evocam e na qual está incluído o autor e irmão do rapaz perdido. Gostei sobretudo do primeiro e do último capítulo da novela: no primeiro acompanhamos as deambulações de Grover pelas lojas da cidade e assistimos a um episódio a um tempo repugnante e belo, tudo descrito numa linguagem de grande delicadeza poética ("A luz invadiu de novo o dia."); no último, acompanhamos a deambulação do autor pelos locais da sua infância com o objectivo único de encontrar a casa onde a família tinha vivido durante algum tempo e rever o quarto onde o irmão tinha morrido. O rapaz perdido tinha partido no quarto onde agora dormiam dois rapazinhos, irmãos da proprietária da casa. Nesta busca de uma identidade ofuscada pelos anos, Thomas Wolfe compreendeu:

"E, assim, tudo encontrando, soube que tudo se perdera."

Um pequeno livro muito bonito que sobressalta e angustia. A impotência humana face à estranha des(ordem) do universo.


View all my reviews

08/10/14

O Relatório de Brodeck

O Relatório de BrodeckO Relatório de Brodeck by Philippe Claudel
My rating: 5 of 5 stars

Doloroso. Belo. Perfeito.

Nem uma palavra sublinhada ao longo de todo o livro (não há frase que não mereça essa "honra").

É impossível olhar o mundo com os mesmos olhos depois deste livro.

É ainda com o coração alvoroçado que assumo que a culpa é toda minha. Eu é que quis (muito) ler este livro.

View all my reviews

02/10/14

A Ilha de Sacalina - Notas de Viagem

A Ilha de SacalinaA Ilha de Sacalina by Anton Chekhov
My rating: 4 of 5 stars

Nestas notas da viagem que Tchékhov fez à colónia penal da Ilha de Sacalina em 1890 são-nos descritas de forma pormenorizada todas as incidências da vida dos condenados e condenadas (e por vezes das famílias que os acompanham...), dos deportados, dos colonos, das populações nativas e dos funcionários da colónia penitenciária.

Trata-se de uma visão pessoal do autor resultante da constatação dos factos in loco e de uma análise baseada em relatos anteriores a respeito da ilha delineados por aventureiros, oficiais, funcionários do estado, padres e médicos que por ali passaram. Temos, assim, acesso a um documento precioso pela quantidade e relevância da informação transmitida, maravilhosamente transmitida pelo génio sensível, atento e humano de um escritor como Tchékhov.

É particularmente comovente a forma como a palavra "saudade" se difunde no relato... A saudade de quem se sabe perdido nas névoas gélidas e impenetráveis de uma ilha de pesadelo, tão próxima e tão distante da Mãe-Rússia. E é a saudade, um desespero silencioso e a vontade férrea de "sentir" a liberdade que impelem um grande número de prisioneiros a tentar a fuga:

"Uns evadem-se, esperando andar em liberdade uma semana ou um mês; outros contentam-se só com um dia. Um dia apenas, mas que seja meu!" (P. 261)

A brutalidade dos castigos corporais praticados (chicotadas) perturba o autor, afasta-o por momentos do cenário que classifica de repugnante mas, ainda assim, fá-lo regressar para impor o seu relato fidedigno ao leitor (parece sentir-se moralmente obrigado a tal...) a quem se dirige, aliás, com frequência:

"Vou para a rua, onde o silêncio é cortado pelos gritos lancinantes que vêm da sala dos guardas e que se devem ouvir, julgo eu, por toda a cidade. Um deportado à paisana passa na rua, olha de relance para a sala dos vigilantes e no seu rosto e até no seu andar transparece o medo. Entro de novo na sala, volto a sair... O inspector continua a contar." (P.255)

Sadicamente apreciados por um enfermeiro militar que insiste para assistir à aplicação do castigo, rematando no final:

"- Eu gosto de assistir a isto! - diz-me o enfermeiro militar, com um ar satisfeito, encantado por ter podido desfrutar deste repugnante espectáculo." (P.255)

Assombrou-me também a forma como as pessoas eram reduzidas a "nada", a pó, tanto em vida como depois de mortas:

"As pequenas cruzes das campas dos deportados são todas iguais e todas anónimas. (...) mas de todos esses homens que repousam sob aquelas pequenas cruzes, desses homens que mataram, que arrastaram correntes, que se evadiram, ninguém terá necessidade de se lembrar deles. Talvez, em algum lugar da estepe ou da floresta russa, junto a uma fogueira, um velho carroceiro levado pelo aborrecimento conte os crimes de um bandido da sua aldeia. Então o seu interlocutor olhará para a escuridão e sentirá um arrepio, uma ave nocturna piará, e nisso consistirá toda a recordação." (P.233)

Também a forma como as mulheres eram "comercializadas" na ilha é chocante e o autor não nos poupa à cruel realidade do seu destino, um destino ao serviço do homem, para satisfação de todas as necessidades do homem. Escravas das suas determinações. Foi com especial asco que li essas terríveis páginas...

Em resumo, uma leitura densa mas, na minha perspectiva, essencial para penetrar na(s) mentalidade(s) russa(s) daquele final de século (com grandes mudanças no horizonte) e para conhecer melhor as ideias e convicções de um homem chamado Anton Tchékhov que um dia decidiu embarcar rumo a Sacalina.


View all my reviews

23/09/14

Sem Sangue

Sem SangueSem Sangue by Alessandro Baricco
My rating: 3 of 5 stars

Talvez demasiado breve para a profundidade psicológica do que é narrado...

Senti sinceramente que eram necessárias mais páginas para abarcar aquele desfecho que tem tanto de absurdo como de belo.

"Então pensou que, por incompreensível que a vida seja, provavelmente a atravessamos com o único desejo de regressar ao inferno que nos gerou, e de habitar ao lado de quem, uma vez, nos salvou desse inferno. Tentou perguntar a si mesma de onde viria aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu que não tinha respostas. Entendia apenas que nada é mais forte que esse instinto de voltarmos onde nos fizeram em pedaços, e de repetir esse instante ao longo dos anos. Pensando apenas que quem nos salvou uma vez o poderá fazer sempre. Num longo inferno idêntico àquele de onde vimos. Mas subitamente clemente. E sem sangue.

View all my reviews

19/09/14

As Dez Figuras Negras

As Dez Figuras NegrasAs Dez Figuras Negras by Agatha Christie
My rating: 4 of 5 stars

Enredo muito bem montado (não... não descobri quem era o/a responsável pelas mortes...), ambiência fantástica, notável trabalho psicológico das personagens e um desfecho que não podia ter sido melhor.

Há um começo que prenuncia, desde logo, um fim trágico:

"Havia qualquer coisa de mágico numa ilha - só a palavra sugeria fantasia. Perdia-se o contacto com o mundo - uma ilha era, só por si, um mundo. Um mundo, talvez, sem retorno." (P.28/29)


E há um fim que enuncia a tragicidade do próprio género humano:

"Mas nenhum artista, compreendo agora, pode retirar satisfação unicamente da arte. Existe um anseio natural por reconhecimento que não se pode desmentir.
Sinto, permitam-me que o confesse com toda a humildade, um lamentável desejo humano de que alguém saiba como fui inteligente..." (p. 189)

Uma leitura deliciosa, uma Agatha Christie no seu melhor!


View all my reviews

16/09/14

Mistérios

MistériosMistérios by Knut Hamsun
My rating: 4 of 5 stars

Um livro indispensável que apresenta ao leitor uma das mais desconcertantes personagens da história da literatura, Johan Nielsen Nagel, um excêntrico que desembarca numa pequena cidade norueguesa sem uma intenção pré-definida acabando por expor o seu carácter inconstante, inventivo e auto-destrutivo ao mesmo tempo que "descarna" os mistérios que povoam a cidade e que assombram os seus habitantes...

Bem, e que dizer de Grogaard, o Anão? E da mulher alta e esguia com o crucifixo de pedras verdes? Mistérios, verdadeiramente...

View all my reviews

11/09/14

Norwegian Wood

Norwegian WoodNorwegian Wood by Haruki Murakami
My rating: 4 of 5 stars

A vida é um sopro.

Ora gélido e invernoso,
Ora cálido e primaveril.

Os epitáfios dos adolescentes
Rezam uma idade eterna,
A banda sonora dos que ficam
Empurra-os para um denso bosque coberto de neve
Onde a dor é suportada na primavera da vida.

Toru Watanabe deixa-se consecutivamente atrair por triângulos amorosos onde não há intriga nem disputa, apenas a partilha de uma mesma voz. Mas quando se torna no protagonista da sua vida, a sua lucidez estremece e não consegue encontrar o seu lugar no seu mundo. O mundo exterior por sua vez é muitas vezes encarado como acessório mas Watanabe vai-se encontrando em coisas tão pequenas mas tão carregadas de significado como a partilha de uma refeição com um homem moribundo. Toru quer sobretudo reconhecer-se na feérica Naoko, a sombra que paira sobre o bosque cerrado do seu inverno, ou na extravagante Midori, o raio de sol que penetra a densidade do bosque com a sua força imparável e primaveril.
Toru vai crescendo no conhecimento da dor da incerteza e da dor do que é a realidade da vida.
Assistimos à metamorfose de Toru, à sua passagem ao estado adulto e responsabilidades inerentes (e que responsabilidades ele assume!) e à sua libertação (?).
Somos donos do nosso destino mas às vezes é assustador pensar como a densidade dos bosques que encontramos pelo caminho obscurece e condiciona o nosso rumo…



View all my reviews

O Seminarista

O SeminaristaO Seminarista by Rubem Fonseca
My rating: 4 of 5 stars

Uma lufada de ar fresco...

Apesar do personagem central de "O Seminarista" ser um assassino profissional e por vezes sermos confrontados com descrições de crimes que nada têm de refrescante, a verdade é que a escrita de Rubem Fonseca marca pela simplicidade realista que roça a genialidade... A "trama" é bem urdida e o humor é espontâneo e inteligente.

É sempre bom constatar que a língua portuguesa nunca deixará de ser reinventada enquanto existirem autores como Rubem Fonseca.

"É isso: quando a aurora se apresenta de bianco vestita ela fica muito bonita na música de Leoncavallo e na voz de Caruso, mas na vida real fica insuportável. Ao contrário, o pôr do sol vai ganhando beleza continuamente, como no poema de Keats 'a thing of beauty is a joy forever, its loveliness increases', como aquela beleza que eu estava contemplando, o pôr do sol, que nunca agride, a menos que considere uma forma de agressão a melancolia que invade você na hora em que o crepúsculo se instala no mundo antecedendo a noite." (P.70)

View all my reviews

O Mundo Invisível

O Mundo InvisívelO Mundo Invisível by Katherine Webb
My rating: 4 of 5 stars

Um livro surpreendente. Comprei-o apenas com base numa sinopse que me pareceu interessante e ainda bem que arrisquei!

A prosa de Katherine Webb é simples mas poderosa, não raro deparando-nos com alguns momentos de grande beleza poética que me agradaram particularmente. Para além da escrita equilibrada e cativante, Katherine Webb presenteia o leitor com uma história bem engendrada e desenvolvida a um ritmo acertado, plena de personagens convincentes e sedutoras(A Cat Negra, a Cat Negra...) que nos enredam nas suas vidas, paixões e segredos.

Altamente recomendável.

View all my reviews

08/08/14

A Porta

A PortaA Porta by Magda Szabó
My rating: 4 of 5 stars

É difícil fechar um livro que nos abriu tantas portas, é difícil opinar sobre uma das mais singulares heroínas literárias que já tive oportunidade de conhecer, é difícil afirmar que testemunhei o descerramento do coração de Emerence e dos seus singelos segredos… Nada é fácil quando nos propomos comentar um livro excepcional onde tudo aquilo que nos é mais querido, é narrado de forma tão grandiosa e bela. Siderou-me a eloquência, a dignidade, o orgulho de uma mulher que mal sabia ler e escrever, abalou-me a superioridade desta mulher ante o saber livresco, atordoou-me a sua dedicação ao duro trabalho físico, extasiou-me o seu desprezo pela política e pela religião, comoveu-me a sua infinita generosidade que se estendia a pessoas e animais.
As 4 estrelas que aqui atribuo são um simples apontamento, necessário, mas sem vital importância porque o que fica, o que permanece desta leitura de “A Porta” é a obstinação de uma mulher idosa e semianalfabeta em ser ela própria, sem falsos pudores, em preservar a sua intimidade, os seus “hóspedes”, a sua vida noutra época, noutro local, em se salvar e salvar os outros da sua tragédia pessoal. A patroa, escritora, é guiada numa viagem ao centro do mundo de Emerence, uma viagem que mais ninguém empreendera porque sempre encontraram portas fechadas a cadeado… O coração de Emerence é a porta para um mundo onde cada um dita as regras da sua própria vida, onde a nossa identidade é moldada por nós próprios (pelas nossas alegrias e sofrimentos), onde a pureza é uma realidade e onde a Ternura, a Amizade, o Amor são os alicerces da alma e do corpo, esculpidos no horror de um dia de tempestade.


View all my reviews

04/08/14

Alexander the Great - The Macedonian Who Conquered the World

Alexander the Great - The Macedonian Who Conquered the WorldAlexander the Great - The Macedonian Who Conquered the World by Sean Patrick
My rating: 3 of 5 stars

Através da leitura deste livro tive a oportunidade de recordar aspectos da biografia bélica de um dos maiores génios militares da história, Alexandre o Grande; contudo, e ao contrário do que estava à espera, este não é um livro sobre Alexandre o Grande, mas uma obra sobre o poder do ímpeto nas conquistas dos génios e como pode ser determinante na vida de qualquer pessoa. Alexandre funciona assim como um mero exemplo para demonstrar como o ímpeto é fundamental para se alcançar objectivos em maior ou menor escala. O título induziu-me em erro mas foi uma leitura satisfatória.

View all my reviews

01/08/14

Luís XIV e o Amor - As Mulheres na Vida do Rei-Sol

Luís XIV e o Amor - As Mulheres na Vida do Rei-SolLuís XIV e o Amor - As Mulheres na Vida do Rei-Sol by Antonia Fraser
My rating: 3 of 5 stars

Um livro interessante que nos permite entrever a personalidade de Luís XIV e a influência que as mulheres que o rodeavam tiveram na sua vida. Sendo o retrato de uma época em que as mulheres eram meros objectos de prazer ou moedas de troca entre nações, vislumbramos ainda assim assinaláveis indícios da férrea vontade e determinação de algumas destas mulheres em contrariar o inevitável destino a que estavam votadas... Exemplo disso mesmo é a "mulher secreta" do Rei-Sol, Madame de Maintenon, que se submete quase exclusivamente ao que considera ser a "vontade de Deus" na "reconversão" do Rei.

View all my reviews

10/07/14

A Mulher Adormecida de Nápoles

A Mulher Adormecida de NápolesA Mulher Adormecida de Nápoles by Adrien Goetz
My rating: 2 of 5 stars

Este livro revelou-se uma mera curiosidade em que sobressaem uma escrita sem vitalidade e uma história sem verve... Foi interessante rever e em alguns casos conhecer aspetos da arte produzida por pintores franceses do século XIX, nomeadamente Ingres, Corot e Géricault. De resto, simplesmente mediano.

View all my reviews

04/07/14

Halloween

HalloweenHalloween by Nádia Batista
My rating: 3 of 5 stars

"Halloween" é um conto de temática interessante escrito sem floreados desnecessários por uma autora ainda com um longo caminho a percorrer mas que julgo terá o nervo necessário para progredir.

Ao ler esta pequena história e em particular o momento da "festa subterrânea", lembrei-me do "The Shining" de Stephen King e do filme baseado nesta obra de Stanley Kubrik... Um baile de defuntos (o sobrenatural em ação) ou a loucura de Alexandre/Jack a cavalgar livremente?

Sei que se trata de um conto mas gostaria de ter assistido a um maior aprofundamento das personagens e das situações em que se vêem envolvidas mesmo que no fim tudo ficasse em aberto como ficou... Acaba por ser tudo narrado de forma excessivamente telegráfica e o leitor exige mais...

Fica uma marca positiva e uma classificação que, espero, seja um incentivo para a autora perseverar!

View all my reviews

03/07/14

A Casa de Papel

A Casa de Papel A Casa de Papel by Carlos María Domínguez
My rating: 4 of 5 stars

Uma leitura fantástica, uma escrita memorável e uma inevitável identificação com o "vício" dos livros.

View all my reviews

02/07/14

Cadernos do Subterrâneo

Cadernos do SubterrâneoCadernos do Subterrâneo by Fyodor Dostoyevsky
My rating: 4 of 5 stars

Um pequeno grande livro fundamental para a compreensão da obra do autor russo e cujo tom é caracterizado pelo próprio Dostoyevsky como "estranho, áspero e louco". Muito bom.

View all my reviews

24/06/14

Kanikosen - O Navio dos Homens

Kanikosen - O Navio dos HomensKanikosen - O Navio dos Homens by Takiji Kobayashi
My rating: 3 of 5 stars

Na verdade, seria um 3.5*...

"Kanikosen - O Navio dos Homens" é um livro imbuído de uma forte carga política mas fiz um esforço por me abstrair dessa vertente (natural tendo em consideração as circunstâncias biográficas do autor e a realidade social do Japão da época) e concentrei-me na linha HUMANA que rege a obra e que chega até ao leitor através de um realismo impressionante.

Um pesqueiro e navio-fábrica japonês em águas territoriais russas, um capitão sem poder, um punhado de homens-escravos que trabalha sob as mais ignominiosas condições e um patrão-ditador que pune física e psicologicamente a tripulação quando a produção não é a desejada e, por fim, a revolta dos trabalhadores, são alguns dos ingredientes que apimentam esta história de brutalidade e selvajaria mas também de coragem e união.

A escrita de Takiji Kobayashi é bela na sua simplicidade, focada no objetivo único de contar uma história de resistência e dor coletiva, daí que apenas conheçamos o nome do patrão e os trabalhadores sejam simplesmente denominados como o gago, o estudante ou o antigo mineiro...

Vale a pena penetrar nas águas turvas do infernal Kamchatka (microcosmo do Japão) onde é derramado não só o sangue dos caranguejos mas também o da mártir tripulação deste kanikosen.



View all my reviews

23/05/14

The Unknown Citizen - W. H. Auden

(To JS/07 M 378
This Marble Monument
Is Erected by the State)
He was found by the Bureau of Statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a
   saint,
For in everything he did he served the Greater Community.
Except for the War till the day he retired
He worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors Inc.
Yet he wasn’t a scab or odd in his views,
For his Union reports that he paid his dues,
(Our report on his Union shows it was sound)
And our Social Psychology workers found
That he was popular with his mates and liked a drink.
The Press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his Health-card shows he was once in hospital but left it cured.
Both Producers Research and High-Grade Living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment Plan
And had everything necessary to the Modern Man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public Opinion are content 
That he held the proper opinions for the time of year;
When there was peace, he was for peace:  when there was war, he went.
He was married and added five children to the population,
Which our Eugenist says was the right number for a parent of his
   generation.
And our teachers report that he never interfered with their
   education.
Was he free? Was he happy? The question is absurd:
Had anything been wrong, we should certainly have heard.

20/03/14

Incident by Countee Cullen

Today I would like to share with you a poem written by Countee Cullen (1903-1946), one of the most representative voices of the Harlem Renaissance.


(For Eric Walrond)
Once riding in old Baltimore,   
   Heart-filled, head-filled with glee,   
I saw a Baltimorean
   Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
   And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
   His tongue, and called me, “Nigger.”

I saw the whole of Baltimore
   From May until December;
Of all the things that happened there
   That’s all that I remember.

18/03/14

Acredita e Vencerás de Laura Karvell


Aos leitores de língua portuguesa e aos leitores que dominam a língua portuguesa recomendo hoje a leitura do primeiro livro de Laura Karvell, "Acredita e Vencerás". Trata-se de um romance sobre a "viagem sentimental" de um jovem médico transmontano escrito com a sensibilidade e a paixão próprias de quem, acima de tudo, acredita no poder redentor do amor. O livro pode ser adquirido aqui com um desconto de 7%.


The remarkable art of Brassaï: The Eiffel Tower

From the Stacks: “The Art of Translation”August 4, 1941 By Vladimir Nabokov

Three grades of evil can be discerned in the queer world of verbal transmigration. The first, and lesser one, comprises obvious errors due to ignorance or misguided knowledge. This is mere human frailty and thus excusable. The next step to Hell is taken by the translator who intentionally skips words or passages that he does not bother to understand or that might seem obscure or obscene to vaguely imagined readers; he accepts the blank look that his dictionary gives him without any qualms; or subjects scholarshiphttp://cdncache3-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png to primness: he is as ready to know less than the author as he is to think he knows better. The third, and worst, degree of turpitude is reached when a masterpiece is planished and patted into such a shape, vilely beautified in such a fashion as to conform to the notions and prejudices of a given public. This is a crime, to be punished by the stocks as plagiarists were in the shoebuckle days.
The howlers included in the first category be in their turn divided into two classes. Insufficient acquaintance with the foreign language involved may transform a commonplace expression into some remarkable statement that the real author never intended to make. “Bien être general” becomes the manly assertion that “it is good to be a general”; to which gallant general a French translator of “Hamlet” has been known to pass the caviar. Likewise, in a German edition of Chekhov, a certain teacher, as soon as he enters the classroom, is made to become engrossed in “his newspaper,” which prompted a pompous reviewer to comment on the sad condition of public instruction in pre-Soviet Russia. But the real Chekhov was simply referring to the classroom “journal” which a teacher would open to check lessons, marks and absentees. And inversely, innocent words in an English novel such as “first night” and “public house” have become in a Russian translation “nuptial night” and “a brothel.” These simple examples suffice. They are ridiculous and jarring, but they contain no pernicious purpose; and more often than not the garbled sentence still makes some sense in the original context.
The other class of blunders in the first category includes a more sophisticated kind of mistake, one which is caused by an attack of linguistic Daltonism suddenly blinding the translator. Whether attracted by the far-fetched when the obvious was at hand (What does an Eskimo prefer to eat—ice cream or tallow? Ice cream), or whether unconsciously basing his rendering on some false meaning which repeated readings have imprinted on his mind, he manages to distort in an unexpected and sometimes quite brilliant way the most honest word or the tamest metaphor. I knew a very conscientious poet who in wrestling with the translation of a much tortured text rendered “is sicklied o’er with the pale cast of thought” in such a manner as to convey an impression of pale moonlight. He did this by taking for granted that “sickle” referred to the form of the new moon. And a national sense of humor, set into motion by the likeness between the Russian words meaning “arc” and “onion,” led a German professor to translate “a bend of the shore” (in a Pushkin fairy tale) by “the Onion Sea.”
The second, and much more serious, sin of leaving out tricky passages is still excusable when the translator is baffled by them himself; but how contemptible is the smug person who, although quite understanding the sense, fears it might stump a dunce or debauch a dauphin! Instead of blissfully nestling in the arms of the great writer, he keeps worrying about the little reader playing in a corner with something dangerous or unclean. Perhaps the most charming example of Victorian modesty that has ever come my way was in an early English translation of “Anna Karenina.” Vronsky had asked Anna what was the matter with her. “I am beremenna” (the translator’s italics), replied Anna, making the foreign reader wonder what strange and awful Oriental disease that was; all because the translator thought that “I am pregnant” might shock some pure soul, and that a good idea would be to leave the Russian just as it stood.
But masking and toning down seem petty sins in comparison with those of the third category; for here he comes strutting and shooting out his bejeweled cuffs, the slick translator who arranges Scheherazade’s boudoir according to his own taste and with professional elegance tries to improve the looks of his victims. Thus it was the rule with Russian versions of Shakespeare to give Ophelia richer flowers than the poor weeds, she found. The Russian rendering of
There with fantastic garlands did she comeOf crowflowers, nettles, daisies and long purples
if translated back into English would run like this:
There with most lovely garlands did she comeOf violets, carnations, roses, lilies.
The splendor of this floral display speaks for itself; incidentally it bowdlerized the Queen’s digressions, granting her the gentility she so sadly lacked and dismissing the liberal shepherds; how anyone could make such a botanical collection beside the Helje or the Avon is another question. 
But no such questions were asked by the solemn Russian reader, first, because he did not know the original text, second, because he did not care a fig for botany, and third, because the only thing that interested him in Shakespeare was what German commentators and native radicals had discovered in the way of “eternal problems.” So nobody minded what happened to Goneril’s lapdogs when the line 
Tray, Blanche and Sweetheart, see, they bark at me
was grimly metamorphosed into
A pack of hounds is barking at my heels. 
All local color, all tangible and irreplaceable details were swallowed by those hounds.
But, revenge is sweet—even unconscious revenge. The greatest Russian short story ever written is Gogol’s “The Overcoat” (or “Mantle,” or “Cloak,” or “She-nel”). Its essential feature, that irrational part which forms the tragic undercurrent of an otherwise meaningless anecdote, is organically connected with the special style in which this story is written: there are weird repetitions of the same absurd adverb, and these repetitions become a kind or canny incantation; there are descriptions which look innocent enough until you discover that chaos lies right round the corner, and that Gogol has inserted into this or that harmless sentence a word or a simile that makes a passage burst into a wild display of nightmare fireworks. There is also that groping clumsiness which, on the author's part, is a conscious rendering of the uncouth gestures of our dreams.
Nothing of these remains in the prim, and perky, and very matter-of-fact English version (see—and never see again—“The Mantle,” translated by Claude Field). The following example leaves me with the impression that I am witnessing a murder and can do nothing to prevent it:
Gogol: ... his [a petty official's] third or fourth-story flat...displaying a few fashionable trifles, such as a lamp for instance—trifles purchased by many sacrifices. ...
Field: ... fitted with some pretentious articles of furniture purchased, etc. ...
Tampering with foreign major or minor masterpieces may involve an innocent third party in the farce. Quite recently a famous Russian composer asked me to translate into English a Russian poem—which forty years ago he had set to music. The English translation, he pointed out, had to follow closely the very sounds of the text—which text was unfortunately K. Balmont’s version of Edgar Allan Poe’s “Bells.” What Balmont's numerous translations look like may be readily understood when I say that his own work invariably disclosed an almost pathological inability to write one single melodious line. Having at his disposal a sufficient number of hackneyed rhymes and taking up as he rode any hitch-hiking metaphor that he happened to meet, he turned something that Poe had taken considerable pains to compose into something that any Russian rhymester could dash off at a moment's notice. In reversing it into English I was solely concerned with finding English words that would sound like the Russian ones. Now, if somebody one day comes across my English version of that Russian version, he may foolishly retranslate it into Russian so that the Poe-less poem will go on being balmontized until, perhaps, the “Bells” become “Silence.” Something still more grotesque happened to Baudelaire’s exquisitely dreamy “Invitation au Voyage” (“Mon amie, ma soeur, connais-tu la douceur....”) The Russian version was due to the pen of Merejkovsky, who had even less poetical talent than Balmont. It began like this:
My sweet little bride.Let's go for a ride;
Promptly it begot a rollicking tune and was adopted by all organ-grinders of Russia. I like to imagine a future French translator of Russian folksongs re-Frenchifying it into:
Viens, mon p'tit,A Nijni
and so on, ad malinfinitum.
Barring downright deceivers, mild imbeciles and impotent poets, there exist, roughly speaking, three types of translators—and this has nothing to do with my three categories of evil; or, rather, any of the three types may err in a similar way. These three are: the scholar who is eager to make the world appreciate the works of an obscure genius as much as he does himself; the well meaning hack; and the professional writer relaxing in the company of a foreign confrere. The scholar will be, I hope, exact and pedantic: footnotes—on the same page as the text and not tucked away at the end of the volume—can never be too copious and detailed. The laborious lady translating at the eleventh hour the eleventh volume of somebody's collected works will be, I am afraid, less exact and less pedantic; but the point is not that the scholar commits fewer blunders than a drudge; the point is that as a rule both he and she are hopelessly devoid of any semblance of creative genius. Neither learning nor diligence can replace imagination and style.
Now comes the authentic poet who has the two last assets and who finds relaxation in translating a bit of Lermontov or Verlaine between writing poems of his own. Either he does not know the original language and calmly relies upon the so-called “literal” translation made for him by a far less brilliant but a little more learned person, or else, knowing the language, he lacks the scholar’s precision and the professional translator’s experience. The main drawback, however, in this case is the fact that the greater his individual talent, the more apt he will be to drown the foreign masterpiece under the sparkling ripples of his own personal style. Instead of dressing up like the real author, he dresses up the author as himself.
We can deduce now the requirements that a translator must possess in order to be able to give an ideal version of a foreign masterpiece. First of all he must have as much talent, or at least the same kind of talent, as the author he chooses. In this, though only in this, respect Baudelaire and Poe or Joukovsky and Schiller made ideal playmates. Second, he must know thoroughly the two nations and the two languages involved and be perfectly acquainted with all details relating to his author’s manner and methods; also, with the social background of words, their fashions, history and period associations. This leads to the third point: while having genius and knowledge he must possess the gift of mimicry and be able to act, as it were, the real author’s part by impersonating his tricks of demeanor and speech, his ways and his mind, with the utmost degree of verisimilitude.
I have lately tried to translate several Russian poets who had either been badly disfigured by former attempts or who had never been translated at all. The English at my disposal is certainly thinner than my Russian; the difference being, in fact, that which exists between a semi-detached villa and a hereditary estate, between self-conscious comfort and habitual luxury. I am not satisfied therefore with the results attained, but my studies disclosed several rules that other writers might follow with profit.
I was confronted for instance with the following opening line of one of Pushkin's most prodigious poems:
Yah pom-new chewed-no-yay mg-no-vain-yay
I have rendered the syllables by the nearest English sounds I could find; their mimetic disguise makes them look rather ugly; but never mind; the “chew” and the “vain” are associated phonetically with other Russian words meaning beautiful and important things, and the melody of the line with the plump, golden-ripe “chewed-no-yay” right in the middle and the “m’s” and “n’s” balancing each other on both sides, is to the Russian ear most exciting and soothing—a paradoxical combination that any artist will understand.
Now, if you take a dictionary and look up those four words you will obtain the following foolish, flat and familiar statement: “I remember a wonderful moment.” What is to be done with this bird you have shot down only to find that it is not a bird of paradise, but an escaped parrot, still screeching its idiotic message as it flaps on the ground? For no stretch of the imagination can persuade an English reader that “I remember a wonderful moment” is the perfect beginning of a perfect poem. The first thing I discovered was that the expression “a literal translation” is more or less nonsense. “Yah pom-new” is a deeper and smoother plunge into the past than “I remember,” which falls flat on its belly like an inexperienced diver; “chewed-no-yay” has a lovely Russian “monster” in it, and a whispered “listen,” and the dative ending of a “sunbeam,” and many other fair relations among Russian words. It belongs phonetically and mentally to a certain series of words, and this Russian series does not correspond to the English series in which “I remember” is found. And inversely, “remember,” though it clashes with the corresponding “pom-new” series, is connected with an English series of its own whenever real poets do use it. And the central word in Housman’s “What are those blue remembered hills?” becomes in Russian “vspom-neev-she-yesyah,” a horrible straggly thing, all humps and horns, which cannot fuse into any inner connection with “blue,” as it does so smoothly in English, because the Russian sense of blueness belongs to a different series than the Russian “remember” does.
This interrelation of words and non-correspondence of verbal series in different tongues suggest yet another rule, namely, that the three main words of the line draw one another out, and add something which none of them would have had separately or in any other combination. What makes this exchange of secret values possible is not only the mere contact between the words, but their exact position in regard both to the rhythm of the line and to one another. This must be taken into account by the translator.
Finally, there is the problem of the rhyme. “Mg-no-vainyay” has over two thousand Jack-in-the-box rhymes popping out at the slightest pressure, whereas I cannot think of one to “moment.” The position of “mg-no-vain-yay” at the end of the line is not negligible either, due as it is to Pushkin’s more or less consciously knowing that he would not have to hunt for its mate. But the position of “moment” in the English line implies no such security; on the contrary he would be a singularly reckless fellow who placed it there.

Thus I was confronted by that opening line, so full of Pushkin, so individual and harmonious; and after examining it gingerly from the various angles here suggested, I tackled it. The tackling process lasted the worst part of the night. I did translate it at last; but to give my version at this point might lead the reader to doubt that perfection be attainable by merely following a few perfect rules. 

17/03/14

Quando vier a primavera

A sprinkle of 20th century portuguese poetry:

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Fernando Pessoa's heteronym